Vista panorâmica da cidade de Québec

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O vazio e a esperança


Sentei no chão e chorei sozinha.
(...)

Enquanto o último móvel descia e a chave na mão aguardava ser entregue, registrei o vazio daquele espaço lindo, colorido e iluminado.

Meu apartamento amarelo, de porta azul, e uma linda e enorme janela será um dos lugares que mais sentirei falta, aaaah e a janela.
(...)

A casa dos meus pais agora é o meu refúgio, já não me sinto de lugar nenhum, sem minha casa, sem minha cama, sem um lugar pra chamar de meu lar.

Tudo agora é caos, nada encontro, nada percebo e tudo misturado confunde e enfada os olhos.

Tudo agora é quadrado e de papelão, encaixotado para a despedida, que se resumirá em malas cheias de esperança.

O poder de sintetizar virou minha sina; o sapato, a roupa, os presentes, os livros, meus pincéis, e minha arte se espremem desejando fazer parte de uma nova história, como se disputassem um lugar de importância, não sabendo que são todos especiais. 
Neste caso o especial dá lugar ao essencial que se soma as gramas de uma mala compactada e de peso definido.

Vender, se desfazer, doar, se dar, faz parte de um processo doloroso de aprendizagem ao que parte. Crescemos e aprendemos a lidar com sentimentos, coisas e pessoas como nunca imaginávamos. 
O abraço que acalanta, a boca que sorri, as mãos que apertam, contrastam com o olhar que inveja, com os braços que se cruzam e com línguas que duvidam. 

A idéia toma forma, agora é um número, uma data, e o nascer do sol e da lua são eventos comemorados como se fossem os últimos, ao mesmo tempo que encurtam os dias e as horas. 
O tempo passa veloz, sem que possamos nos despedir lentamente e decentemente de quem amamos.

E para quem amamos deixamos o vazio, a ausência, uma mágoa e mesmo sem querer demonstramos que escolhemos estar longe e isso deve doer, sim, porque todos choram ao perceber que partiremos.

Cada gesto, cada olhar, cada beijo e abraço o desejamos para a eternidade, até parece que nunca mais os encontraremos. 
Sentimos medo em deixá-los para trás. 
E se não os vermos mais? E se não der tempo de voltar? E se...o medo também tem seu espaço na bagagem e é esta bagagem que levaremos e carregaremos vazias de ausência e cheias de esperança.



Boa noite Diário.



16 comentários:

Natalie Lins disse...

Lindo. Quase chorei com o texto. Força e fé!

bjs

Alex disse...

Olha... fiquei comovido com seu texto.
Estamos passando pelas mesmas coisas por aqui. A fase do desapego já começou desde a chegada dos nossos vistos, e as coisas estão indo embora devagar... Hoje foi a vez dos livros que restaram das doações para a universidade... Daqui a pouco virá o rapaz para fotografar nossas coisas para a venda de garagem... Preparando o apartamento para ser alugado... é assim...
Mas pense que mais cedo ou mais tarde essas coisas iriam embora... você mesmo iria embora. Como está indo. Chore o que tiver que chorar, mas estamos em busca de algo melhor e logo virá tudo novo... um mundo novo diante de vocês. Então virão os sorrisos!
Bonne Chance!
Alex, do blog canadaselfemployed.tumblr.com

Ucrâmbuco! disse...

Chorei! Traduz todo nosso sentimento de partida!!!

Anônimo disse...

Este e exatamente o sentimento!!!
Boa sorte em sua jornada
ANDRADE

Itinha e Rodrigo disse...

Força! Aponta pra fé e rema!

Infelizmente nem tudo nem todos cabem na nossa mala, nem todos compartilham dos nossos desejos, mas vou falar pra vocês o que eu gostaria de ouvir quando ( e se) chegar minha vez!

PARABÉNS!!! ESTOU MEGA FELIZ POR VOCÊS! Que tudo seja lindo e repleto com todas a dificuldades que podem ocorrer, é lá que vocês vão se encontrar e fazer sua nova vida com sua parede amarela e uma grande janela!

Mudanças são importantes e nos fazem crescer e se não der certo as portas e corações de todos que aqui estão, estará sempre aberta pra receber vocês!

Muito sucesso na nova jornada!

Itinha

doisnocanada disse...

Nossa, que lindo... Ainda estamos na metade do caminho, mas me apertou o coração ler esse texto. É um misto de querer muito essa sensação e medo de senti-la... rs
Acho que imigração é isso, um misto de medo e euforia. Tudo o que é novo da medo, faz parte.

bj
Tata

Diário Canadá Brasil disse...

Sabe o que mais amo no meu Diário? Ler todos estes comentários.
Capaz de encher nosso coração de fé e força.
Muuuuuito obg.

Sandro (Os Patos...) disse...

Quer ouvir uma boa notícia? Não é difícil achar casas e apartamentos no Canadá, com grandes e largas janelas...

Diário Canadá Brasil disse...

Booooooooooa notícia Sandro, kkkkkk
Obg!

Quebec à Trois disse...

Teu texto descreve muito bem o sentimento deste período. A gente parece ficar sem chão...
Mas muita coisa nova está por vir! Força!

Abraços!
Femme

Doug Ramsey disse...

Parabéns pelo texto! Agora é pensar nos abraços que virão e nas janelas (reais e figurativas) que abrirão no Canadá!

Abraço!

Les Saints disse...

Juro que fiquei emocionada!
Acho que a parte do desapego será a pior para mim, sou muito apegada à tudo.
Desejo apenas serenidade, muita serenidade!

Abraços.

Júlio Galvão disse...

Que belo texto, que belo blog! Ainda estamos no início do processo e sentir o pouquinho de como será na nossa vez.

Parabéns e espero um dia ser novamente seu conterrâneo.

Um grande abraço de nós daqui do http://dooxenteaooui.blogspot.com/.

Catherine Itusarry disse...

Força e boa sorte !

abraços.

Franthiesca disse...

Parabéns pelo blog!
Estamos conhecendo o programa de imigração agora e iniciando o curso de francês, sabemos que teremos um longo caminho pela frente e com certeza farei muitas visitas à sua página, pois ela está muito bem elaborada e nos ajudará muito!
Obrigada!
Que Deus abençoe seus caminhos!

Anônimo disse...

Muito lindo!!!! Já acompanho seu blog a muito tempo, só q n lembro ter comentado em nenhum outro post.... n por n ter gostado do q li.....e sim por só querer acompnhar sua experiencia; mas suas palavras neste ..... me deu vontade de te abraçar e dizer: "CALMA VAI DAR TUDO CERTO". Grande abraço então e muitas felicidades na nova vida.

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